sábado, 14 de outubro de 2017

Tambores da vida

A vida é cheia de percussão
difícil é acertar na mão
porque ela é cheia de percalços,
entrelinhas,
e buracos.

Sorte é quem se salva
dessa maré alta
cheia de labirintos
fantásticos ou não
sei não
só sei que quero continuar
sem nunca acatar
o que aqueles que acham que sabem
mandam
pois se mandam
não sentem
e se não sentem
não sabem
o real significado
do grito
dos desesperados
que se encontra latente
dentro do pulmão
da nossa brava gente.

Doce feito chupar limão

Meu pai sempre me disse que o mundo é mau, eu nunca acreditei muito nesse carnaval. Só que hoje, quando eu me vejo de longe, percebo que ele estava certo, e eu fui a única que demorei a entender isso.
Não sejamos hipócritas, eu me incluo nesse mundo cruel, não sou Santa, já fiz gente sofrer, mas acredito ter chegado a hora de amadurecer.
Cansei de me sentir frágil, vítima dessa sociedade doente que me acorrenta, desse mundo que faz com que nos afastemos do nosso verdadeiro eu, eu esse que acredito ser bom.
Na real talvez as pessoas não sejam ruins, mas estamos tão doentes só pensando em nosso próprio umbigo e queremos tanto ser aceitos que vestimos as máscaras a que nos são impostas, sem nem ao menos questiona-las até que um dia nos olhamos no espelho e não gostamos do que está diante de nós. Nossos reflexos distorcem o nosso eu mais puro e sincero, e nos obriga a vestirmos uma carapuça que nos distancia de nós mesmos.
Vivemos em um mundo de aparência, nos preocupamos mais com o sorriso amarelo da foto no facebook do que tratar bem o diferente, talvez porque o diferente assuste um pouco. Estamos preocupados em sermos aceitos por pessoas em aplicativos que nos descartam ou aceitam segundo a nossa aparência, ao invés de nos conectarmos energeticamente e quimicamente com pessoas que a gente conheça ao vivo e a cores.
Não me levem a mal, muitos amigos meus se utilizam de tais aplicativos e eu os respeito, porém não consigo visualizar o real sentido disso tudo.
Acredito de corpo e Alma que a nossa juventude está cada vez mais fútil, e isso só me faz querer voltar no tempo e ter nascido em outra década.
Verdade verdade mesmo, quero me esvaziar, estar pronta para o novo, e quando isso acontecer, pretendo me esbaldar até a vida vier me calar, e quanto a isso tudo não sei, só sei que cansei de não conseguir me enquadrar naquilo que chamam de lar.

quarta-feira, 8 de março de 2017

08/03/2017

Dia Internacional da mulher,
dia de desentalar
tudo o que me foi posto
pra dentro
contra minha vontade.

Dia de lembrar
que não queria escrever nada
mas escrevo como uma leve brisa
de vontade que dá
e fica.

Vontade de desentalar tudo
o que foi escrito
contra minha vontade
de pobre mulher
“que que tu qué?”
Desenterrar os nós da barriga
tirar dessa breve luz
algum solstício
serenata
de amores perdidos
fugazes
desenterrar tudo
o que quis dizer “chega”
“para” “já deu”
dizer que tive trabalho e doeu,
doeu sentir-me desmerecida
por ter nascido sem algo
entre minhas grossas pernas
esqueceram de dizer
antes de posar
nessa grande terra a beira mar,
que seria difícil ser mulher
dentro desse universo
de Deuses fálicos
e promessas vazias
vaselina
buraco
espaço
entre os nós
que dão na perna.

Dobrei um macho
fui pro buraco
subi na tocha
caí em retirada
dentro de um mundo
onde me sinto só
boa parte do tempo,
um mundo onde aprendi
que o dom da oratória
não me salva
pelo tamanho do meu clitóris
e sim outros tamanhos
bem menos importantes.

Escrevo sim
com dor
dor de tudo o que não foi dito
de tudo o que me foi entalado a acreditar
a vida inteira,
dor por ter medo de andar na rua
dor por não me sentir inserida
muitas e muitas vezes
por ser mulher,
metida,
careta,
bitolada.

Sinto-me bitolada e perdida
a maior parte do tempo
e se a minha dor
não se converte em nada
nem em poesia
prefiro morrer a resistir
na resiliência
que pouco afaga
mas não engana nada.

Nasci com a bunda
virada pra lua
alguns poderiam assim dizer,
mas desse modo
não me sinto,
sinto-me muitas vezes azarada
isso faz parte de mim,
de todas
enfim.

Dia Internacional da Mulher,
enquanto passa o futebol
luto pela minha classe
com raça
foco
força
e vontade,
vontade de me criar
de nos criarmos
em um mundo
com menos ódio,
competitividade
e problemas ociosos.

O mundo melhor a de vir
meu pobre coração ingênuo
a isso prefere aderir
então vamos resistir
até o mundo melhor sair
em nossos braços,
vamos lutar
e interferir.

Estamos todas
no mesmo barco
e pensando assim
vamos vivendo
até que a fera nos separe
entre cantos e desencantos
a vida vai chegando
“dias melhores virão”
vamos cantar
um dia quem sabe
mas por hoje chega,
que o buraco é mais embaixo
entre Teresas,
Marias
e Marajás
vamos gritar
até nossa voz no Japão chegar
vamos implicar
e atazanar

até a sorte virar. 

quarta-feira, 1 de março de 2017

A fada do século XIX

Era uma vez uma fada
que corria pra brincar
e ria de tanto se emperiquitar.

Mas acontece que a vida
de tão sórdida que era
decidiu que tiraria
as asas da pobre dona moça
e assim a fada entendeu
o real valor das bugingangas
que não chamava de suas.

Não culpem a fada,
por seu pequeno desleixo
mas é que as coisas
“consideradas sem ênfase”
a magoavam muito
visto que ela aprendeu
nas porradas que a vida lhe deu
que nada jamais poderá ser
do jeito que a pobre rica fada quer,
pois o mundo é mais do que
um simples ponto de vista,
a vida é cheia de milhares de pontos
fora da curva
curvatura ás vezes similar
ás vezes patética.

A pobre fada verde aprende a cada dia
que o ouro pra ela
não é o outro pra ele
e isso dói
mas fazes o que?
Melhor deixar acontecer.

A jovem fada percebeu
que de tanto realizar os desejos
das pobres criaturas chamadas seres humanos
endureceu
perdeu sua inocência
e seus traços mais genuínos
mas vocês não precisam se preocupar com a fada
ela já passou por poucas e boas
logo ela se recupera
e lembra
que as fuligens do carnaval não ficam
vão-se feito ouros roliços
mas calma
ouros?
A velha pequena fada
finalmente compreendeu
que se não houver
ouros hortaliças no final do arco íris
nada terá de belo e singelo
para deixar para seus filhos e netos.

A velha fada casou.

Tem agora três filhos e é dona de casa
em um apartamento no Centro.

Agora a velha fada se lembra
que nunca gostou de copa
mas foi pra lá ser dona de casa
velha, vazia, limpa.

Já não escreve mais,
Como fazia quando jovem.

Engordou,
tem a pele flácida
e olhos de fumaça.

Continuou a fumar
um de seus únicos prazeres na vida.

Acha que o marido a trai,
já chegou até a pagar um bom detetive particular
pra peitar
o marido calhorda.

Agora ela só não o abandona
pela esperança
de ser uma velha senhora
com netos e bisnetos criados
criaturas lindas eles são,
mas a fada do século XIX
ainda tenta lembrar
o por quê de se unificar
quando só pensava em ser feliz
e realizar
os desejos de um pobre aprendiz
quando existiam
os prazeres
em realizar os desejos de algum outro jovem infeliz.

Nunca haverá respostas,
mas ela mostra
que podia ser feliz sim
mas preferiu
arcar com as consequências
dessa velha sociedade
a que só nos suga
e não contagia
afinal estamos
todos juntos e misturados
no grande caldeirão alado

que se chama vida. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Admito

Admito estar preocupada
com a natureza humana.

Aliás,
estou puta com a natureza desvairada
das coisas que não caem do céu
da desconfiança embriagada onde me encontro
de não saber fazer vinho se transformar
em tolas margaridas
por mais simpáticas que possam ser.

Gostaria de tentar morrer mais uma vez,
mas isso jamais voltará a acontecer.

Os cartazes de guerra
que cercam a tela
que antes era preta
agora
transformam-se em um enorme quadro em branco.

Todas queremos fugir
correr
iludir
persuadir.

O real alimento da natureza humana
é a putrefação instantânea.

Ao mesmo tempo
que os ventos de lá
levam todos
que preferem peitar
o infinito pouco particular,
aqui dentro do peito
existe um mundo
mundo esse único
e para alcançá-lo
é preciso ter calma e resiliência
resistência
e persistência.

Mas uma hora a poeira baixa
o tempo esfria
a mão esguia
e ficaremos todas muito bem,
obrigada.

Aqui não existe filosofia
só selvageria
misturada com algo puro
e bizarro tudo ao mesmo tempo
sou assim e sempre ei de ser,
doa muito ou pouco
a quem queira conhecer.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

À Sombra das Paineiras

As Merdas
são quase que,
literalmente,
jogadas no ventilador
todos os dias da vida
do mês
da semana
e todos os dias
das nossas eternas vivas.

As vidas são tantas
que às vezes fazemos erros
erros sim erros não 
se liga no peidão
peitão? 

Eu? 

Homens querem ser tratados
a pão de ló
coitados.

Enquanto moças
lépidas e fagueiras
tentam escrever
os restantes das nossas
pobres vidas
mundanas.

Chopps?
Cerveja?
Rivo?
Rio?
Muito.

Da cara do período
Perigo 
Todos os dias da semana.

E aí te pergunto:
Que mal tem
querer bem?
Querer bem bom 
Pay 
Dei
Ali em búzios
onde os sonhos começaram a reascender 

Transcrever tudo 
o mundo
até brotarem cacos
espalhados na estante.

Doenças todos temos
porém a vida
sempre vos lembra
que viver é bom e ajuda a sonhar
viver
peidar 
Peitar
e transcender.

Acender
todos os dias 
da semana
da trilha 
do trilho 
que é a vida
de uma quarta feira de cinzas
que acaba de fazer 23.

23 anos? Só?
Pra mim parece eternidade
eternidade em miúdos
Graúdos
Encucados.

Mas encucados
todos somos
porém a vida sempre estará aí 
pra provar que necessitamos de
cuidados.

Cuidados essenciais? 
Sim não?
Sei não.

Porém amigos sempre seremos
abaixo o vannucci 
e á sombra das paineiras
alienistas?
encantados?
Endiabrados.

Comigo bem 
tudo vai ficar
pelo menos assim 
aguardo salientar
não se preocupe 
com o universo
ou então 
"(...)preocupe-se se quiser
mas saiba que pré-ocupação 
é tão eficaz quando mascar
chiclete pra 
tentar resolver 
uma equação de álgebra (...)"

Então cuidado com a rota
eles estão aqui pra lacrar. 

O mundo? 
Tudo tudo.

amigos?
Sempre seremos.

Então fique bem 
que pegarei meu trem
assim que a roda baixar
também. 

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Dois sóis

Odeio que sintam pena de mim.

Por mais estressante que a vida possa ser
não existem dois purês
pra um bidê
e vice versa.

Não existe essa
de metade da laranja
porque quem escolhe ser laranja
rosa ou amarela
somos nós
ninguém pode decidir
a sois.

Ontem vi dois sóis 
aqui da minha janela
mas nem por isso
tô tadinha
velha, gorda ou roxa.

Aliás, estou roxa sim.

Roxa, pois pulso por dentro
e acaba posando por fora
entre inúmeros odores
o mundo tá errado
errado em recriminar
essa tal bubu
quedas "filosofia"
sem nem ter lido
Platão, de beauvoir
ou piriquitinhas aladas
a cantar.

Quem fala nada sabe
e se sabe prefere não contar,
quatro carneirinhos que foram 
pra lá
e se queimaram
porque diferença sempre existe
e se existe acho graça.

E quem fala tanto
já leu minhas escrituras?
Aposto que não.

Eles ficam preocupados 
se eu viro bem ou não. 

Pra onde venta mais?
á minha mão
que apaixonada ou não
escreve a Deus dará
porque se deu ou se dá
tá lá.

E quem escolhe? 
São princesas?
Tigresas?
Tesouros?

Todas escondidas
nos olhos do papai do céu. 

Se viu ou não
sei não
mas por hoje chega
que mamãe atazana 
e papai espiona. 

Deitar e dormir é fácil 
falo, baixo.

Sou baixa e alta
tudo junta e misturada
sou assim e sempre ei de ser.

Esse é meu bem 
meu maior querer,
então muito prazer
em te conhecer.