quarta-feira, 8 de março de 2017

08/03/2017

Dia Internacional da mulher,
dia de desentalar
tudo o que me foi posto
pra dentro
contra minha vontade.

Dia de lembrar
que não queria escrever nada
mas escrevo como uma leve brisa
de vontade que dá
e fica.

Vontade de desentalar tudo
o que foi escrito
contra minha vontade
de pobre mulher
“que que tu qué?”
Desenterrar os nós da barriga
tirar dessa breve luz
algum solstício
serenata
de amores perdidos
fugazes
desenterrar tudo
o que quis dizer “chega”
“para” “já deu”
dizer que tive trabalho e doeu,
doeu sentir-me desmerecida
por ter nascido sem algo
entre minhas grossas pernas
esqueceram de dizer
antes de posar
nessa grande terra a beira mar,
que seria difícil ser mulher
dentro desse universo
de Deuses fálicos
e promessas vazias
vaselina
buraco
espaço
entre os nós
que dão na perna.

Dobrei um macho
fui pro buraco
subi na tocha
caí em retirada
dentro de um mundo
onde me sinto só
boa parte do tempo,
um mundo onde aprendi
que o dom da oratória
não me salva
pelo tamanho do meu clitóris
e sim outros tamanhos
bem menos importantes.

Escrevo sim
com dor
dor de tudo o que não foi dito
de tudo o que me foi entalado a acreditar
a vida inteira,
dor por ter medo de andar na rua
dor por não me sentir inserida
muitas e muitas vezes
por ser mulher,
metida,
careta,
bitolada.

Sinto-me bitolada e perdida
a maior parte do tempo
e se a minha dor
não se converte em nada
nem em poesia
prefiro morrer a resistir
na resiliência
que pouco afaga
mas não engana nada.

Nasci com a bunda
virada pra lua
alguns poderiam assim dizer,
mas desse modo
não me sinto,
sinto-me muitas vezes azarada
isso faz parte de mim,
de todas
enfim.

Dia Internacional da Mulher,
enquanto passa o futebol
luto pela minha classe
com raça
foco
força
e vontade,
vontade de me criar
de nos criarmos
em um mundo
com menos ódio,
competitividade
e problemas ociosos.

O mundo melhor a de vir
meu pobre coração ingênuo
a isso prefere aderir
então vamos resistir
até o mundo melhor sair
em nossos braços,
vamos lutar
e interferir.

Estamos todas
no mesmo barco
e pensando assim
vamos vivendo
até que a fera nos separe
entre cantos e desencantos
a vida vai chegando
“dias melhores virão”
vamos cantar
um dia quem sabe
mas por hoje chega,
que o buraco é mais embaixo
entre Teresas,
Marias
e Marajás
vamos gritar
até nossa voz no Japão chegar
vamos implicar
e atazanar

até a sorte virar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário