Acordei e tudo parece distorcido. Como quem tropeça em um degrau maior do que parece ser, levei um enorme susto ao acordar. Não sei se você já sentiu isso, um medo que cresce no peito e faz você se sentir tão sozinho mais tão sozinho que parece não existir ninguém no mundo, só você. É você tendo que lidar com os seus sentimentos e só você é capaz de domá-los.
Até agora não sei se parei de sentir os medos que afligem o mundo ou se senti todos ao mesmo tempo, mas o fato é que já há um tempo não me sinto plenamente feliz. Acho que a última vez que me senti inundada por um sentimento de extrema alegria foi quando eu era criança.
Mas acontece que no meu sonho eu era perseguida por um homem, um homem de aspecto familiar. Não sei dizer que homem era esse, tinha um capuz em sua cabeça. Era homem, macho, denso, misterioso, assustador. Eu tentava me esconder, mas todos os lugares que eu ia caiam sobre minha cabeça, mas ao contrário do que eu sempre achava o peso das coisas na verdade não era pesado de fato, era leve, não doía, mas me assustava me assustava muito. De repente eu estava em outro lugar e senti que estava bem distante da minha casa. Pensei alto comigo mesma: “Quantas vidas eu perdi pela covardia, pela inércia, pela aceitação alheia? Quando eu era criança era mais viva, mais feroz, mais tigresa. O que houve comigo?”
Então me deparei com meu Eu criança e meu Eu adulto, sexy. Esse meu segundo Eu sentia tesão. Meu Eu criança sentiu-se inibido pelo meu Eu puta, porém mesmo assim meu Eu criança continuou parado ali. Meu Eu sexy gritou: “Sai, vai embora, eu já cresci, supera isso! Essa sou eu agora, você já não existe mais.” Foi aí que minha avó já falecida apareceu para dar abrigo ao meu Eu criança, que a essa altura chorava compulsivamente. Meu Eu sexy decidiu deixar meu Eu criança e minha avó e saiu andando em busca de novos prazeres que a vida poderia me proporcionar. Não senti nada por esse abandono e durante o sonho me senti culpada por não sentir nada. Quanto mais eu andava mais nada passava pela minha cabeça e isso me angustiava. Seria crescer isso mesmo? Parar de sentir? Espero do fundo do peito que não, não, não pode ser.
E foi aí que eu acordei. Levantei em um susto. Quando percebi, centenas de aranhas subiam no meu corpo pela minha cama, saí correndo assustada sem perceber que ainda estava dormindo. Dei um salto enorme e fui parar em um barco no meio do mar. Para onde esse barco ia me levar? Não sei mesmo, só sei que estava completamente só na imensidão do oceano. Deitei no barco e decidi ver as nuvens no céu, que cada vez mais passavam mais rápido sobre meus olhos. Senti o mundo continuando a andar enquanto eu estava presa no barco. Senti-me sufocada. Comecei a mexer-me compulsivamente procurando respirar, daí caí no mar. Comecei a nadar para o fundo, fundo, fundo do poço, do asfalto já cansado. Eu corria na restinga o mais rápido que conseguia. Fujo. Mas fujo de que? De mim mesma, certamente.