Era uma vez uma fada
que corria pra brincar
e ria de tanto se emperiquitar.
Mas acontece que a vida
de tão sórdida que era
decidiu que tiraria
as asas da pobre dona moça
e assim a fada entendeu
o real valor das bugingangas
que não chamava de suas.
Não culpem a fada,
por seu pequeno desleixo
mas é que as coisas
“consideradas sem ênfase”
a magoavam muito
visto que ela aprendeu
nas porradas que a vida lhe deu
que nada jamais poderá ser
do jeito que a pobre rica fada quer,
pois o mundo é mais do que
um simples ponto de vista,
a vida é cheia de milhares de pontos
fora da curva
curvatura ás vezes similar
ás vezes patética.
A pobre fada verde aprende a cada dia
que o ouro pra ela
não é o outro pra ele
e isso dói
mas fazes o que?
Melhor deixar acontecer.
A jovem fada percebeu
que de tanto realizar os desejos
das pobres criaturas chamadas seres humanos
endureceu
perdeu sua inocência
e seus traços mais genuínos
mas vocês não precisam se preocupar com a fada
ela já passou por poucas e boas
logo ela se recupera
e lembra
que as fuligens do carnaval não ficam
vão-se feito ouros roliços
mas calma
ouros?
A velha pequena fada
finalmente compreendeu
que se não houver
ouros hortaliças no final do arco íris
nada terá de belo e singelo
para deixar para seus filhos e netos.
A velha fada casou.
Tem agora três filhos e é dona de casa
em um apartamento no Centro.
Agora a velha fada se lembra
que nunca gostou de copa
mas foi pra lá ser dona de casa
velha, vazia, limpa.
Já não escreve mais,
Como fazia quando jovem.
Engordou,
tem a pele flácida
e olhos de fumaça.
Continuou a fumar
um de seus únicos prazeres na vida.
Acha que o marido a trai,
já chegou até a pagar um bom detetive particular
pra peitar
o marido calhorda.
Agora ela só não o abandona
pela esperança
de ser uma velha senhora
com netos e bisnetos criados
criaturas lindas eles são,
mas a fada do século XIX
ainda tenta lembrar
o por quê de se unificar
quando só pensava em ser feliz
e realizar
os desejos de um pobre aprendiz
quando existiam
os prazeres
em realizar os desejos de algum outro jovem infeliz.
Nunca haverá respostas,
mas ela mostra
que podia ser feliz sim
mas preferiu
arcar com as consequências
dessa velha sociedade
a que só nos suga
e não contagia
afinal estamos
todos juntos e misturados
no grande caldeirão alado
que se chama vida.
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